Sociopata: Minha História - Resenha crítica - Patric Gagne, PhD
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2 leituras ·  4 avaliação média ·  1 avaliações

Sociopata: Minha História - resenha crítica

Biografias & Memórias

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 978-1-6680-0318-3

Editora: Simon & Schuster

Resenha crítica

Você já parou pra pensar no que aconteceria se, um dia, as emoções simplesmente não chegassem? Não a tristeza, não a culpa, não aquele aperto no peito quando alguém que você ama chora na sua frente. Nada. Só um silêncio interno que vai se transformando em pressão.

Foi assim que Patric Gagne cresceu. Uma menina americana comum, de família estruturada, boas notas, casa arrumada. E, por dentro, um vazio que doía como fome. Não maldade. Não um plano diabólico. Apenas a ausência de algo que todo mundo ao redor parecia ter de graça.

O que a maioria das pessoas chama de sociopata veio de Hollywood: o serial killer sorridente, o vilão de terno. Patric passou a vida descobrindo que a realidade é muito mais chata e muito mais humana. Sociopatia, no relato dela, é um déficit de resposta emocional que gera ansiedade — e a ansiedade pede alívio. Roubar um objeto, entrar numa casa vazia, cravar um lápis no braço de uma colega. Coisas que aliviavam a pressão como uma válvula.

O que torna essa história diferente de qualquer relato de crime é o final. Patric virou doutora em psicologia clínica, casou, teve filhos e hoje atende pacientes que ninguém queria atender. Não porque se curou. Porque aprendeu a construir, com esforço consciente, aquilo que nunca veio por instinto. E é essa engenharia que vale a pena escutar.

A menina que não sentia culpa

Aos sete anos, Patric já roubava. Não coisas valiosas — um chaveiro, uma borracha, um imã de geladeira. O valor era irrelevante. O que importava era a sensação depois: uma descompressão física, como se alguém tivesse aberto uma janela dentro dela.

O episódio que marcou a infância foi com uma colega chamada Syd. Patric cravou um lápis no braço da menina. Não houve raiva, não houve rancor. Houve alívio. Uma paz estranha, quase agradável, subindo pelo corpo enquanto a outra criança chorava. Naquele instante ela entendeu que era diferente — e que era melhor não contar isso a ninguém.

Só que a mãe dela valorizava honestidade acima de tudo. Então Patric contava a verdade. E a verdade assustava os adultos. Quando dizia "não me sinto mal por isso", o rosto da mãe se contorcia de medo. Ela aprendeu rápido que a sinceridade não construía pontes, construía muros. E que dizer o que os outros queriam ouvir era mais barato do que ser compreendida.

As regras invisíveis que ninguém explicou

Havia um ritual entre mãe e filha: fazer bolo. Enquanto misturavam a massa, Patric confessava as pequenas transgressões da semana. Era o momento mais próximo de intimidade que as duas conseguiam ter.

Num desses dias, faltou açúcar. Patric simplesmente foi até a casa dos vizinhos, entrou pela porta destrancada, pegou o açúcar e voltou. Para ela, a lógica era perfeita: eles não estavam usando, ela precisava, ninguém saiu perdendo. A reação horrorizada da mãe foi um choque genuíno. Existia um conjunto de regras que todo mundo parecia ter baixado ao nascer, e ela não tinha recebido o arquivo.

Foi então que a mentira virou ferramenta de sobrevivência. Não mentira de vilã, mentira de tradutora. Ela precisava converter seu funcionamento interno numa linguagem que não gerasse pânico nos outros. Enquanto isso, o pai se afastava, engolido pelo trabalho na indústria musical, e a família ia se desmontando em silêncio.

A palavra que faltava

A separação dos pais nunca foi anunciada. Simplesmente aconteceu uma mudança para a Flórida, e com ela veio algo precioso para uma adolescente como Patric: falta de supervisão. Noites livres, ruas desconhecidas, portas para testar.

Numa excursão a uma prisão estadual da Flórida, um guarda descreveu certos presidiários para o grupo. Falou de homens que não sentiam culpa, que não temiam consequências, que agiam sem o freio que o resto das pessoas carrega. E usou uma palavra: sociopata. Patric ficou paralisada. Pela primeira vez existia um nome para aquilo que ela era.

Não foi um alívio bonito. Foi mais como receber um diagnóstico de doença grave. Mas nomear é o primeiro passo para tratar. Pouco depois, numa das suas rondas noturnas, ela quase foi sequestrada — e sentiu medo real, físico, verdadeiro. Descobriu ali que o medo era uma das poucas emoções que ainda funcionavam nela. E que o medo, diferente da culpa, poderia servir de bússola.

O furão, os brincos e a decisão de esconder

Baby era o furão de estimação da família. Quando morreu, todos choraram. Patric ficou olhando, calculando qual seria a expressão apropriada, e então simulou o choro. Contraiu o rosto, forçou a respiração, imitou o que via. Funcionou — ninguém percebeu. Mas o esforço de atuar deixou uma exaustão que ela chamava de estresse preso.

Esse estresse crescia. Num conflito explosivo com a mãe, Patric pegou um par de brincos valiosos dela e destruiu de propósito. Não foi impulso cego: foi retaliação calculada, com prazer no resultado. Depois disso, veio a conclusão que mudaria a década seguinte da vida dela. A mãe nunca ia entender. Logo, a única saída era a clandestinidade.

A nova casa da família tinha janelas fáceis e vizinhança silenciosa. As fugas noturnas viraram rotina. Ela invadia a antiga casa para recuperar um colar roubado que tinha esquecido lá, foi flagrada por uma criança e improvisou uma história com uma frieza tão convincente que a criança acreditou. A transgressão premeditada e bem-sucedida dava euforia, dava controle. E ela construiu um código moral próprio: tudo valia, desde que a pressão baixasse.

O primeiro amor e a adrenalina de Los Angeles

Num acampamento de verão realizado numa antiga propriedade dos Rockefeller, Patric conheceu David. Ele não se assustou com a ousadia dela — ao contrário, entrou junto nos túneis secretos da propriedade. Pela primeira vez alguém achou interessante aquilo que todos achavam perturbador.

E aconteceu o impossível: ela se apaixonou. De verdade. A descoberta bagunçou tudo o que ela pensava sobre si mesma, porque provava que a apatia não era total. Havia uma exceção, e a exceção tinha nome. David virou uma âncora externa, uma referência moral que ela consultava quando não sabia o que era certo.

Depois veio a UCLA, e Los Angeles ofereceu o anonimato de uma cidade grande. A pressão precisou de doses maiores. Patric começou a roubar carros de universitários bêbados nas noites de festa — dava uma volta, sentia o que chamava de pequenos estouros de cor, e devolvia. Adrenalina como remédio. E remédio, ela ainda ia descobrir, tem dose, tem tolerância e tem efeito colateral.

Da teoria ao autodiagnóstico

Na faculdade, os conflitos com Kimi, sua colega de quarto estrangeira, escancararam o problema. Patric simplesmente não conseguia se importar com o incômodo que causava. Não era arrogância. Era ausência de sinal.

Foi nas aulas de psicologia que a peça se encaixou. Os professores falavam de apatia, de transtornos antissociais, de déficit de resposta emocional. Ela leu The Mask of Sanity, de Hervey Cleckley, e devorou o DSM. Ali encontrou a distinção que mudaria sua vida: psicopatia como limitação biológica praticamente imutável, sociopatia como algo moldado pelo ambiente — e, portanto, maleável.

Maleável significava tratável. Significava que seus impulsos destrutivos não eram essência, eram sintoma. Eram reações subconscientes a um estresse crônico causado pelo vazio. Se o gatilho era o estresse, o estresse podia ser gerenciado. Foi a primeira vez que Patric olhou para si mesma e viu um problema de engenharia, não uma sentença.

Prescrições, funerais e uma confissão ao pai

Com essa lógica na cabeça, ela montou um sistema que chamava de prescrições comportamentais. Em vez de esperar a pressão explodir, agendava transgressões controladas: invadir uma casa vazia, sem levar nada, só para sentir o alívio. Como quem toma remédio antes da crise.

Outra prescrição era mais estranha. Patric passou a frequentar funerais de desconhecidos. Sentava no fundo, observava o luto alheio e absorvia aquela carga emocional intensa como quem se aquece numa fogueira. Não sentia a dor, mas sentia a temperatura. Era o mais perto que chegava de estar viva emocionalmente.

Profissionalmente, foi trabalhar como agente na agência de talentos do pai. A indústria musical era brutal, moralmente flexível, e ali seus traços — charme superficial, leitura fria de pessoas, negociação sem escrúpulos — viraram vantagem competitiva. Foi para esse mesmo pai que ela confessou tudo: a apatia, as invasões, a solidão. Ele ficou chocado com os métodos, mas não recuou. Virou o primeiro aliado consciente do seu lado sombrio.

Terapia, impostores e a queda

A Dra. Carlin aplicou nela o teste PCL:SV e confirmou traços elevados de sociopatia, com pontuação alta em charme e manipulação. A terapia começou de verdade. E logo veio o contraste que faltava.

Jennifer, uma colega da indústria musical, se autodeclarava sociopata em cada conversa. Só que agia por excesso: crises de abandono, drama explosivo, emoção transbordando. Patric reconheceu ali um Transtorno de Personalidade Borderline, e a terapeuta confirmou a distinção — borderlines agem por medo do abandono, sociopatas por desapego. O ódio de Patric por esses impostores que glamorizavam o diagnóstico era visceral: eles tornavam impossível que alguém com déficit real pedisse ajuda sem ser tratado como monstro.

A Dra. Carlin então impôs um contrato duro: nada de atividade ilegal, ou a terapia acabava. David se mudou para Los Angeles, e a rotina doméstica trouxe uma normalidade morna. Mas reprimir tudo sem alternativa criou uma represa. A recaída veio: invadiu a casa vizinha vazia e roubou uma miniatura da Estátua da Liberdade, que passou a deixar à vista como código passivo-agressivo para David. Depois foi pior — invadiu a casa de um colega a pedido da amiga Arianne, só para ler diários alheios. Servir de mercenária emocional para pessoas normais não aliviou nada. Só aprofundou o nojo de si mesma.

O abismo com David e o espelho chamado Max

Quando confessou o episódio do diário, Patric foi brutalmente honesta: não sentia culpa pelo ato, sentia irritação por ter sido usada. David não conseguiu engolir. O moralismo dele e a amoralidade pragmática dela criaram um abismo que nenhuma conversa fria conseguia atravessar.

Foi então que ela tomou a decisão mais importante da vida: voltar para a universidade e cursar um doutorado em psicologia clínica, estudando a própria condição. David viu aquilo como obstáculo ao casamento e aos filhos que idealizava. O distanciamento virou rotina.

Nesse vácuo apareceu Max, um músico famoso que não só aceitava a falta de limites dela como aplaudia. Era inebriante ter um espelho que dizia sim. Em paralelo, Ginny Krusi, uma mãe de palco desequilibrada, tentou chantagear Patric e o pai. Ela respondeu com investigação e intimidação silenciosa, invadindo o quintal da chantagista à noite, operando acima da lei. E foi com Max que aconteceu o inesperado: percebeu que ele não a amava — a parasitava, fascinado pela utilidade da sua frieza para a arte dele. Ao encerrar aquilo, sentiu, pela primeira vez na vida, arrependimento fisiológico de verdade. Um aperto real.

Hackear a própria mente e reconstruir o amor

O ponto de virada não veio de uma epifania, veio de uma ferramenta. Na terapia cognitivo-comportamental, Patric aplicou o Modelo ABC de Albert Ellis aos próprios pensamentos: mapeou o evento, a crença e a consequência emocional. E descobriu algo que virou sua tese de doutorado: não era o tédio que causava o comportamento destrutivo. Era a ansiedade gerada pelo tédio — o pânico de ser vazia.

Isso mudou o alvo do tratamento. Em vez de reprimir impulsos, ela passou a tratar a ansiedade que os alimentava. Com técnicas de exposição, voltava intencionalmente às cenas dos antigos crimes, sentia o gatilho subir e não agia. Cansada de fingir, assumiu o rótulo abertamente em jantares e na defesa da tese. David exigiu discrição, ela recusou, e o noivado terminou. Ficar sozinha doeu menos do que deveria — mais uma prova da própria apatia.

No estágio clínico, veio a surpresa: Patric se revelou excepcional atendendo pacientes graves com traços antissociais, gente que detestava psiquiatras convencionais. Ela oferecia empatia hiper-racional, sem julgamento e sem susto. Com o próprio fantasma domesticado, reencontrou David — agora sem pedido de mudança. Casaram. Nasceu o filho. E ela descobriu que a maternidade exige dela esforço cognitivo diário para produzir o que não vem por instinto, mas gera uma lealdade feroz.

Amor como decisão, não como reflexo

Patric Gagne não aprendeu a sentir. Aprendeu a escolher. Onde o instinto emocional não aparece, ela coloca decisão consciente, ferramenta cognitiva e responsabilidade absoluta pelo que faz. Talvez seja o lembrete mais desconfortável desta história: quem sente tudo naturalmente raramente precisa provar nada — e quem não sente nada constrói o vínculo tijolo por tijolo.

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Quem escreveu o livro?

Patric Gagne, PhD, é autora do livro de memórias 'Sociopath'. Em sua obra, ela detalha sua vida, incluindo o processo de cres... (Leia mais)

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